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Novo álbum de Pabllo Vittar é lançado de surpresa.

Na era da música fugaz, em que um single ouvido com voracidade em um dia pode ser substituído por outro single na playlist do dia seguinte, a busca pelo sucesso tem que ser incessante.

O título do segundo álbum de Pabllo Vittar – Não para não, disponibilizado às 21h de ontem, 4 de outubro de 2018 – traduz o movimento contínuo da indústria da música pop na fabricação de ídolos e hits que muitas vezes se sucedem uns aos outros sem deixar rastro.

Cantora e drag queen de origem maranhense e vivência mineira que lançou o primeiro álbum, Vai passar mal, em janeiro de 2017, Vittar foi um dos fenômenos do pop brasileiro no ano passado. Tanto que, atenta aos sinais, a indústria abriu portas para outras drags, como Aretuza Love, sem que nenhuma tenha bisado por ora a explosão da carismática Vittar.

Como já sinalizara em agosto o single Problema seu (Alice Caymmi, Arthur Marques, Gorky, Maffalda, Noize Men, Pablo Bispo e Zebu), pagodão baiano imerso na batida pop sintética orquestrada pelo DJ Rodrigo Gorky com a equipe de produtores intitulada Brabo Music Team para dar forma ao álbum, Não para não soa como produto industrial idealizado para manter Vittar sob os holofotes.

Essa busca exacerbada pelo êxito norteia o álbum. O que era espontâneo em Vai passar mal parece estrategicamente calculado em Não para não – até porque teve uma gravadora multinacional, Sony Music, injetando dinheiro na confecção do disco e esperando o retorno do investimento. Mas esse artificialismo, motor da indústria da música, jamais tira os méritos do álbum, bem produzido e hábil na confecção de um pop brasileiro com conexões com a cena internacional.

Vittar oferece o que se esperava dela neste segundo álbum: um punhado de hits em potencial fabricados com matéria-prima rítmica vinda sobretudo do Nordeste. Tecnobrega, pagode baiano, carimbó e ritmos genericamente rotulados como forró – essência de músicas como Seu crime (Arthur Marques, Diplo, Gorky, King Henry, Maffalda, Pablo Bispo, Philip Meckseper e Zebu) e Não vou deitar (Arthur Marques, Gorky, Maffalda, Pablo Bispo e Zebu), esta pontuada por flerte com a PC Music – são triturados no liquidificador pelo time de Gorky para produzir a mistura pop eletrônica que o mercado e o público de Vittar aguardavam.

Pabllo Vittar filtra ritmos nordestinos pela batida do produtor Rodrigo Gorky — Foto: Divulgação / Pedrita JunckesPabllo Vittar filtra ritmos nordestinos pela batida do produtor Rodrigo Gorky — Foto: Divulgação / Pedrita Junckes

Pabllo Vittar filtra ritmos nordestinos pela batida do produtor Rodrigo Gorky — Foto: Divulgação / Pedrita Junckes

Poderia até se dizer que a cantora passou na prova do segundo disco, se essa sentença já não soasse anacrônica em tempo volátil em que o conceito de álbum perdeu força. Na hipótese improvável de nenhum das nove músicas apresentadas por Vittar no álbum (levando-se em conta que uma das dez faixas, Problema seu, já tinha sido lançada) surtir o esperado efeito viral, nada impede que Vittar edite daqui a dois meses um single inédito que estoure e vire o jogo a favor da artista.

A máquina da indústria opera na mesma alta velocidade das mentes cada vez mais dispersas dos ouvintes. Não por acaso, o segundo álbum de Vittar apresenta dez músicas em 26 minutos. Nenhuma faixa chega sequer aos três minutos regulamentares. E que diva pop precisa mais de dois minutos hoje em dia para dar o recado de que é poderosa?

Variam os ritmos e as batidas, mas a mensagem do disco parece ser uma só: Pabllo Vittar está podendo. “Dias ruins vieram e foram”, festeja a dragem Ouro (Arthur Marques, Filip Nikolic, Gorky, Maffalda, Pablo Bispo e Zebu), música dividida com a amiga trans Urias.

Pabllo Vittar canta dez músicas em meros 26 minutos — Foto: Divulgação / Pedrita JunckesPabllo Vittar canta dez músicas em meros 26 minutos — Foto: Divulgação / Pedrita Junckes

Pabllo Vittar canta dez músicas em meros 26 minutos — Foto: Divulgação / Pedrita Junckes

A mais poderosa das dez faixas, Buzina (Arthur Marques, Gorky, Maffalda, Pablo Bispo, Pabllo Vittar e Zebu), soa mesmo como k-pop made in Brasil, como Rodrigo Gorky conceitua no texto enviado à mídia com informações sobre o disco. Balada de acento R&B, Disk me (Arthur Marques, Diego Timbó, Gorky, Maffalda, Pablo Bispo e Zebu) quase resvala ao fim no pagode e acentua o tom expansivo do canto de Vittar em Não para não.

Guiada pelas batidas, Vittar recebe o cantor Dilsinho no samba pop Trago seu amor de volta (Arthur Marques, Gorky, Maffalda, Pablo Bispo e Zebu), faz piada da própria inabilidade com o espanhol em Não hablo español (Arthur Marques, Filip Nikolic, Gorky, Maffalda, Pablo Bispo e Zebu) – quase uma sátira dos ritmos dominantes no mercado latino de língua hispânica – e divide com Ludmilla a interpretação da funkeada Vai embora (Arthur Marques, Gorky, Ludmilla, Maffalda, Pablo Bispo, Rafael Dias e Zebu), mix de trap com pagode baiano que exemplifica a padronização de repertório pautado pela pobreza melódica e harmônica.

Mas quem se importa com melodia e harmonia numa era em que o ritmo é o elemento dominante? Faixa vocacionada para as pistas de hoje, Miragem (Arthur Marques, Gorky, Junior Fernandes, Kika Boom, Maffalda, Pablo Bispo e Zebu) arremata o álbum com fusão de cumbia e rasteirinha, subproduto do funk carioca, mostrando que Pabllo Vittar canta bem e faz jus a um sucesso que, no caso dela, é real. Pelo menos até o próximo álbum ou single… (Cotação: * * *)

Fonte: G1 Mauro Ferreira

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